A coisinha – Relato #3

Ilustração de Palindrômica.

Ilustração de Palindrômica

As viagens de carro eram longas, eu adormecia com a cabeça pesada, o enjoo mascarava a alegria de estar em movimento (vacas pastavam dos dois lados da janela, algumas me olhavam direto no olho, parecia que queriam me comunicar coisas). Era tempo demais com o pescoço amolecido no assento do carro, trancada em mim, com licença pra explorar a alma de menina, coisa tosca sem atilamento nem lisura, repleta de caroços e desníveis onde era possível cair e torcer o pé vezes seguidas. Observava as tiras de sol lamberem minhas coxas e já não era a mesma, porque um algo sem nome se avolumava ininterrupto como água morna que periga transbordar de uma banheira. Nascia espuma, as bolhas estouravam em ‘plocs’ mudos e eu afundava dentro daquela sensação que não era alegria, injúria, medo, nem ao menos tristeza, mas parecia preguiça, uma forma proibida de lassidão.

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A siririca na tevê e no cinema

Cena de Cisne Negro

Cena de Cisne Negro

Aos 16 anos, eu já havia acompanhado um repertório extenso de cenas de sexo vistas na televisão e no cinema. Pessoas se masturbando, no entanto, era algo a que jamais havia assistido, até ir ao cinema para ver Cisne Negro. Lá, em uma sala escura apinhada de gente – o filme foi um sucesso de bilheteria –, Natalie Portman se masturbou em uma tela de 5 metros de altura. Para mim, foi a glória. Não fosse, claro, a audiência, que se desmanchou em riso, apesar de ser uma cena dramática. Não estavam acostumados a ver uma mulher se masturbar, assim, em um filme, e não sabiam como reagir.

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O chuveirinho – Relato #1

Arte de Verônica de Oliveira

Arte de Vebs

No princípio, havia o chuveirinho, uma porta fechada e duas pernas entreabertas. Do acidente, fez-se a luz. E eu vi que era bom. Não me lembro exatamente com que idade comecei a me masturbar, mas sei que foi cedo. Tão cedo que eu nem sabia que aquilo se chamava masturbação, nem mesmo que era sexual. Era uma sensação boa, que ardia no rosto, deixava as pernas trêmulas e a cabeça da gente meio besta. Continuar lendo