Flocos de milho, masturbação e abuso infantil: o legado do Dr. Kellogg

Ilustração de Angelica Alzona

Ilustração de Angelica Alzona

John Harvey Kellogg foi um dos médicos mais famosos do final do século XIX e do começo do século XX. Ele introduziu o conceito de alimentação natural, exercícios físicos e outras inovações saudáveis. Kellogg  passou décadas dirigindo o famoso Sanatório Battle Creek para a recém-fundada Igreja Adventista do Sétimo Dia.

Ele também foi o cara que inventou o cereal de flocos de milho, junto ao irmão Will. O cereal foi criado para manter os intestinos e os órgãos sexuais dos hóspedes do sanatório livres de congestão. Eventualmente, Will decidiu adicionar açúcar à receita e divulgá-la no mercado de massa.  John não o apoiou, e é por isso que é o nome de Will que você lê nas caixas de cereal hoje.

Sem dúvidas Kellogg fez o bem para muitos. Mas ele não era um bom médico, e não era uma boa pessoa. Isso era mais aparente do que nunca na sua obsessão com masturbação.

Não importa o seu problema, você tem ele porque se masturba

Adivinhe, se ousar, qual vício miserável causa as seguintes condições:

Retardo mental
Deformações da coluna
Palpitações cardíacas
Colapsos nervosos
Epilepsia
Verrugas
Prolapso uterino
Câncer de útero
Loucura
Esterilidade
Malformações em recém-nascidos

Todas são causadas, de acordo com o Dr. Kellogg, pela prática de masturbação feminina.

Coisas que estimulam o interruptor do pecado

A masturbação poderia começar, nos casos mais trágicos, na infância. Kellogg relatou ter visto crianças de dois anos de idade colocar as mãos na própria genitália. Nesses casos as crianças, já moralmente deficientes, estavam provavelmente sofrendo devido aos pecados cometidos pelos seus pais antes mesmo de terem nascido. Ter relações sexuais demais durante a gravidez, ou ser o filho de um masturbador, poderia perverter os valores do feto ainda no útero.

Kellogg não acreditava que nenhuma inclinação natural faria uma criança colocar as mãos em suas partes íntimas. Essas manipulações vinham de forças obscuras e imundas, como prisão de ventre, hemorroidas, infecções urinárias, fissuras anais, e sujeira nos órgãos. Outras tentações estavam na forma de montar o leito. Dizia o Dr. Kellogg: “Camas e travesseiros macios devem ser cuidadosamente evitados… o chão, com um único cobertor dobrado embaixo da pessoa que dorme, é preferível.”

Kellogg recomendava que as crianças dormissem de lado, encurvadas em volta dos seus genitais. Se a criança for teimosa e ficar rolando de um lado para o outro enquanto dorme, amarre suas costas com um lençol ou uma corda. O desconforto as fará ficar de lado novamente, de forma que seus genitais sejam menos estimulados.

Falando em estimulação, evite consumo de comidas sexualmente agressivas como chá, doces, canela e hortelã. Diz Kellogg, “café e chá têm levados vários à perdição”.

Por favor, também tenha cuidado com sonhos descontrolados. “No sono perfeitamente natural, não há sonhos: a consciência é inteiramente suspensa”. Segundo Kellogg, uma paciente não é incapaz de controlar os próprio sonhos, ela escolhe não controlá-los, para manter uma válvula de escape para seus desejos luxuriosos.

E, finalmente, Kellogg dá ao século XIX mais uma razão para mulheres se absterem de ler. Romances com histórias de amor levariam garotas para além da sua  realidade terrível e as transportariam para um lugar onde a paixão é desperta. Uma paixão tão grande que algumas “descobririam o secreto fatal por si mesmas”.

Sintomas de uma criança em perigo

Esses eram alguns dos sintomas que Kellogg dava aos pais para identificar se suas crianças estavam praticando o “vício secreto”.

  • Fazer xixi na cama: masturbação relaxaria a área genital, tornando-a indisciplinada.
  • Mudanças de comportamento:  “Quando uma garota, naturalmente alegre, aberta e amável, sem motivo se torna triste, melancólica, irritável, insatisfeita e fechada, esteja certo de que a causa será nada além da prática solitária”.
  • Insônia
  • Problemas na escola, como notas baixas
  • Timidez: “Em vez de olhar nos olhos da pessoa com quem fala, o masturbador olha para os lados ou para o chão, consciente de que os olhos revelam os segredos da mente.”
  • Comportamento excessivamente ousado ou medroso
  • Corrimento vaginal, cavidade vaginal alargada
  • Comportamento sedutor em garotas: “Modos para frente ou  livres na companhia de meninos é uma conduta suspeita”

Parece estranhamente familiar para você? O Departamento Delaware de Serviços para Crianças, Jovens e Famílias, oferece uma lista bastante sucinta de comportamentos semelhantes, que incluem também mudanças de comportamento e na performance escolar, conduta sexual imprópria, e corrimento vaginal.

A medicina moderna e a psicologia identificam essas condições como sinais potenciais de uma criança ter sido sexualmente abusada. As duas listas combinam, quase palavra por palavra. De gelar o estômago, não? Um homem que se dizia familiarizado com a degeneração sexual estava completamente cego para a realidade.

Vejamos a seguinte história, da edição de 1902 do Guia de saúde e doenças para damas de Kellogg. Ele fala de uma mãe que lhe trouxe uma vítima de estupro de 10 anos de idade. “A sua primeira introdução foi feita por um demônio grisalho em forma humana que a levou para um lugar recluso, e lá lhe introduziu à toda sordidez que sua natureza depravada e sensual pôde imaginar.”

Kellogg, no entanto, viu apenas uma masturbadora de 10 anos de idade. “Uma garotinha, naturalmente esperta e incomumente atraente e inteligente, virou a vítima desse hábito que destrói corpo e alma, e lhe trouxe uma séria doença nervosa que ameaça destruí-la.”

Masturbação é uma reação comum para traumas infantis. Mas a razão pela qual ela se masturbava era desimportamente, uma nota infeliz, mencionada com negligência.

O estupro não era um problema. Como médico, seu trabalho era salvá-la de tocar os próprios genitais. A qualquer custo.

A cura

Kellogg recomendava que crianças deveriam primeiro ser pegas no ato. Ele queria que os pais vissem os filhos se masturbando. A melhor forma de fazer isso, ele dizia, era entrar sorrateiramente no quarto assim que as crianças tivessem dormido, arrancar as cobertas  “com alguma desculpa” e examinar a genitália à procura de sintomas de excitação sexual. Aqui, Kellogg está ensinando adultos a perpetuar uma forma muito peculiar de abuso sexual aos próprios filhos.

Vergonha era uma das armas menos destrutivas de Kellogg. Ele tinha esperança de que essa violação “moralmente justificável” seria o suficiente para parar o hábito. Mas talvez não fosse. Medidas mais drásticas seriam necessárias. Para essas crianças, Kellogg aconselhava: “Envolver as partes em bandagens tem sido praticado com sucesso. Amarrar as mãos também é bem-sucedido em alguns casos, mas nem sempre, pois as crianças podem conseguir continuar com o hábito de outras formas, como mexendo o corpo ou se deitando sobre o abdômen. Cobrir os órgãos com uma jaula foi praticado com sucesso completo”.

Às vezes, os distúrbios eram tão fortes, que só havia um recurso. Meninos eram circuncidados, uma operação raramente realizada nos século XIX a não ser por motivos religiosos. Sem qualquer tipo de anestésico.

“A breve dor da operação terá um efeito saudável sobre a mente, especialmente se conectada à ideia de punição. O ferimento dolorido, que continua por várias semanas, interrompe a prática, que poderá ser esquecida e não retomada”.

Para garotas, Kellogg recomendava uma solução mais permanente, como no seguinte “estudo de caso”: “Um caso desesperado–Uma garota por volta de 10 anos foi trazida até nós pelos seu pai, para livrá-la do vil hábito de auto-abuso. Foi necessário apelar para uma operação cirúrgica, pela qual se espera que ela tenha sido permanentemente curada”.

O tratamento para meninas que se masturbavam se constituía em aplicar ácido carbólico e outros irritantes nos genitais, e remover o clitóris e os lábios menores.

A fé vence os fatos

Havia brochuras e brochuras de literatura médica examinando e desacreditando a clitorectomia disponíveis para Kellogg durante toda a sua carreira. Trabalhos escritos por médicos que fizeram pesquisas de acompanhamento. Kellogg, em vez disso, se prendeu a duas influências principais: um doutor inglês chamado Isaac Baker Brown, que foi proibido de praticar medicina devido à sua adesão ao procedimento, e um pastor chamado Sylvester Graham, inventor da bolacha de água e sal Graham Cracker.

Em 1868, perto do auge da popularidade das clitorectomias “salvadoras de vida” –que, ainda bem, não eram amplamente praticadas–, um respeitado ginecologista chamado Charles West publicou Palestras sobre Doenças da Mulher. Ele relatou a seguinte história:

“Conheço uma senhora de 53 anos, que sofria de uma dolorosa fissura no ânus, devido a qual ela passou pela operação comum de dividir as membranas mucosas da úlcera. O cirurgião que fez isso, sem dizer uma palavra à senhora ou ao marido, ou sem indicar o que faria, cortou fora seu clitóris. O que sobrou do clitóris amputado ficou dolorido… Em resposta às suas perguntas, depois de certa evasão, ela descobriu o que havia sido feito, e sofreu a humilhação extra de descobrir que a justificativa para tal injúria era a de que o cirurgião a havia tomado por dependente de um vício cujos próprios nome e natureza ela desconhecia”.

West foi ao ponto central da questão: “Não se pode negar que procedimentos que reprovaríamos se aplicados a um sexo, mudam de caráter quando perpetrados sobre outro”. Ou seja, que ultraje não aconteceria se médicos começassem a arrancar pintos sem consultar o paciente? Ainda assim, essa prática passava despercebida ou era até mesmo aplaudida quando realizada em mulheres.

Deus é mais poderoso do que bom

Algumas pessoas acham que Kellogg era fruto do seu tempo e se transformou em um bode expiatório, já que sua face pública o torna um alvo fácil para os erros da era.  E talvez isso seja verdade. Mas foi essa face pública que lhe deu poder, e permitiu que ele fizesse mais mal do que o arrancador de clitóris infantis comum.

A reputação não totalmente negativa de Kellogg sobreviveria um século depois do seu tempo em vida; ele era um homem cristão e um médico. Ele virou o rosto da saúde da era vitoriana, de corpo e alma. E, enquanto isso, ele estava cortando fora genitálias de garotinhas porque elas se tocavam. Ele estava amarrando as mãos de vítimas de estupro de 10 anos de idade, sugerindo que elas eram tão responsáveis pela própria vergonha quanto seus estupradores. Ele estava usando ácido carbólico para queimar a carne de crianças para que elas soubessem que haviam pecado.

E ele acreditava que estava fazendo o trabalho de Deus. Ele não citava nenhuma pesquisa embasada, experimentos, testes ou provas. Ele parecia crer que estava além disso. Ele deveria saber que não se pode fazer isso. Talvez ele sabia.

Therese Oneill vive em Oregan e escreve para The Atlantic, The Week, Mental Floss e mais. Seu primeiro livro, “Imencionável: O guia de sexo, casamento e boas maneiras da dama vitoriana” estará disponível pela editora Little, Brown em outubro. Visite seu site.

Texto originalmente publicado no site americano Jezebel e ilustrado por Angelica Alzona. Traduzido e editado por Deixa de Banca

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