Menstruação é uma questão de saúde pública

judychicagoSabe aquele momento chato em que sua menstruação desce e você não trouxe o absorvente ou o coletor menstrual na bolsa? Imagine passar por isso toda vez que  você menstruasse, sem poder parar na farmácia para comprar um pacote salvador, porque a) absorventes não existem onde você mora, b) talvez até mesmo existam, mas você não tem dinheiro para comprá-los. Como isso impactaria a sua vida?

Essa é a realidade de pelo menos 500 milhões de garotas e mulheres no mundo que não têm acesso a instrumentos para lidar com a própria menstruação. O dado é de um relatório de 2015 da Unicef e da Organização Mundial da Saúde (OMS). Na Índia rural, uma em cada cinco garotas larga a escola após começar a menstruar, de acordo com uma pesquisa por Nielsen e Plan India. Das 355 milhões de mulheres e meninas indianas, apenas 12% usam absorventes. Lançado em 2015, o livro Presos que menstruam, da jornalista Nana Queiroz, revelou a situação precária das presidiárias brasileiras, que recorriam a miolo de pão para estancar o sangue.

Mesmo as mulheres norte-americanas que podem comprar seus O.B.s facilmente não estão completamente seguras. Uma mulher média passa mais de 100 mil horas de sua vida com um absorvente interno dentro de sua vagina. Mesmo assim, a Food and Drug Administration (FDA), a Anvisa do Tio Sam, não requer que companhias listem os ingredientes.

Absorventes norte-americanos podem conter “resíduos de herbicidas químicos”, diz Sharra Vostral, uma historiadora da Purdue University que escreveu Under Wraps: A History of Menstrual Hygiene Technology. “Não entendemos as consequências para a saúde, porque não estamos testando absorventes”. (Confira a legislação brasileira para absorventes internos e externos aqui).

“No mundo de hoje, se não tem gente morrendo, a pauta não entra na agenda de ninguém”, diz Venkatramn Chandra-Mouli, uma cientista da OMS que trabalhou com saúde adolescente pelos últimos 20 anos. “Problemas menstruais não matam ninguém, mas para mim, ainda são um problema importante porque afetam como garotas enxergam a si mesmas, e afetam sua auto-confiança, e auto-confiança é a chave para tudo”.

Não bastasse o incômodo físico que pode provocar, a menstruação é tratada frequentemente como um segredo vergonhoso e nojento. Uma mancha de sangue na roupa é constrangedora e não são poucas as adolescentes que escondem os absorventes na bolsa para evitar piadas. Se a menstruação vem à tona, é para ridicularizar mulheres e questionar sua capacidade intelectual e profissional: o famoso “ela está naqueles dias”.

Foi a estratégia usada por  Dr. Edgar Berman, membro do Comitê de Prioridades Nacionais do Partido Democrata. Ele declarou que mulheres não poderiam participar do governo por causa dos “seus desequilíbrios hormonais irados” em 1970. Os comentários eram direcionais a representante Patsy Mink do Havaí, que havia implorado para que o partido focasse nas questões das mulheres.

Berman pediu para as pessoas imaginarem uma “mulher presidente na menopausa que tivesse que decidir sobre a Baía dos Porcos”, ou a presidente de um banco “fazendo um empréstimo sob essas influências hormonais furiosas”. Mink ridicularizou a “performance nojenta”, forçou a resignação de Berman – e, por um breve período de tempo, a menstruação das mulheres ganhou voz. Então 46 anos se passaram sem nenhuma mudança.

Em janeiro, o presidente Barack Obama virou o primeiro presidente a discutir menstruação quando a sensação do YouTube de 27 anos Ingrid Nilsen lhe perguntou porque absorventes são taxados como itens de luxo em 40 estados. Obama ficou chocado. “Tenho que te dizer, eu não faço a mínima ideia porque estados taxam esses objetos como itens de luxo”, ele disse. “Suspeito que seja porque homens eram quem estavam fazendo as leis quando esses impostos foram aprovados”.

Consumidoras norte-americanas gastam U$ 3,1 bilhões em absorventes e protetores de calcinha no ano passado, de acordo com o Euromonitor, e o mercado mundial de proteção sanitária alcançou U$ 30 bilhões. Ainda assim, só aconteceram três inovações significativas na área: absorventes descartáveis, divulgados inicialmente no final do século XIX e atualizados com adesivos em 1969; absorventes internos comerciais nos anos 1930, e coletores menstruais, que se tornaram populares nos anos 80.

Trabalho da artista Jennifer Weigel feito com sangue menstrual

Trabalho da artista Jennifer Weigel feito com sangue menstrual

Antes de absorventes externos e internos, mulheres enrolavam gaze ou flanela e os prendiam com alfinetes nas suas roupas íntimas quando estavam menstruadas. Tudo isso mudou em 1920 com os absorventes Kotex, embora eles fossem apenas um avanço cosméticos. “Eles mudavam de lugar, entortavam, arranhavam. As pessoa ficavam com a pele raspada até na carne viva”, diz Sharra Vostral. “Eram abas gigantes, e você precisava usar um cinto elástico. Era preciso fazer ginástica pra conseguir botá-los”.

Em 1931, um médico de Denver, Earle Cleveland Haas, inventou o absorvente interno moderno e seu aplicador de papelão (ele também inventou o diafragma). Como mulheres assumiam trabalhos mais fisicamente exigentes durante a Segunda Guerra Mundial, a demanda por produtos confortáveis e discretos aumentou. Entre 1937 e 1943, as vendas de absorventes internos cresceram cinco vezes, e 25% da mulheres os usavam regularmente no começo dos anos 40.

A cultura americana popular gradualmente abraçou os produtos de higiene feminina. Mulheres começaram a usar absorventes internos mais do que os externos, e feministas louvaram o O.B. como libertador. “Ninguém estava pensando nos riscos de segurança. Estavam apenas gratas de ter um produto que tapasse o fluxo, literamente”, diz Chris Bobel, presidente da Society for Menstrual Cycle Research e professora associada de estudos de gênero na Universidade de Massachusetts Boston.

Em 1975, a Procter & Gamble começou a testar um super-absorvente interno em forma de saquinho de chá, chamado Rely (cujo slogan era: “absorve até a preocupação”). Eles eram feitos de materiais sintéticos, e o ingrediente chave era carboxymethylcellulose (CMC), um composto que aumentava a absorção tanto que o produto poderia ser usado durante todo o ciclo.

Além de ser dolorido para remover e rasgar o tecido vagina interno, eles eram potencialmente letais: CMC e poliéster em absorventes secavam as vaginas das mulheres, criando o ambiente ideal para a bactéria tóxica Staphylococcus aureus. Em 1980, 890 casos de Síndrome do Choque Tóxico (STC) foram relatados ao Centro de Controle e Prevenção de Doenças, e 91% eram ligados à menstruação. Trinta e oito mulheres morreram.

Na época, por volta de 70% das mulheres americanas usavam absorventes internos. Embora a marca Rely correspondesse a 25% do mercado, era responsável por 75% dos casos de choque tóxico. Outras marcas de super-absorventes foram envolvidas, incluindo Playtex e Tampax, mas a Rely foi a a única que passou por um recall em setembro de 1980. Todos os fabricantes de absorventes enfrentaram processos por choque tóxico, mas mais de 1,1 mil eram contra a P&G.

Em 1982, a FDA requereu que os fabricantes de absorventes avisassem consumidores sobre a ligação entre uso de absorventes internos e choque tóxico. Até junho de 1983, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças havia registrado 2,2 mil casos de choque tóxico. Foi só em 1989 que a FDA exigiu que os fabricantes padronizasse os níveis de absorção e incluíssem avisos nas caixas dos produtos.

Nos anos 80 e 90, o perfil de segurança dos absorventes internos melhorou e a incidência de choque tóxico caiu, mas ainda houve 636 casos da síndrome relacionados a menstruação entre 1987 e 1996, 36 deles fatais.

Embora CMC não seja mais usado em absorventes, um artigo explosivo da Village Voice de 1995 revelava uma nova ameaça: dioxina, um carcinogênico que é tóxico ao sistema imunológico e ligado a defeitos de nascimento, foi encontrado em alguns absorventes internos comerciais. O artigo criticava a FDA por não ter feito nada com memorandos que revelavam essa ligação e por não testar absorventes.

Em uma pequena vitória para os ativistas, a indústria dos absorventes reformou alguma das técnicas de clareamento para reduzir o risco de traços de dioxina, mas os problemas permaneceram. A FDA não requer que as companhias revelem os ingredientes dos absorventes internos e externos, o que significa que sabemos mais sobre onde nossas roupas são feitas do que sobre o que as mulheres estão colocando dentro de suas vaginas.

A mulher média usa por volta de 12 mil absorventes na sua vida, e isso é uma estimativa conservadora, diz Philip Tierno, professor de microbiologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Nova York, que foi um dos primeiros a ligar a síndrome do choque tóxico aos materiais sintéticos em absorventes internos. “A FDA diz que a dioxina é um resquício, mas ela se acumula quando se fala de décadas de uso”. Viscose rayon, feito de serragem, é ainda usada em absorventes internos.

Em 1997, a senadora Carolyn Maloney, de Nova York, introduziu a Lei de Segurança e Pesquisa para Absorventes (agora chamado de Lei Robin Danielson de Segurança para Produtos de Higiene Feminina, em homenagem a uma mulher que morreu de choque tóxico em 1998).

O projeto requeria que os Institutos de Saúde Nacional pesquisassem os riscos de saúde associados aos produtos de higiene menstrual, assim como pressionar a FDA a revelar a lista de ingredientes em absorventes.

Desde então, Maloney reintroduziu o projeto oito vezes; ele está atualmente no Subcomitê de Saúde de Energia e Comércio. “É muito difícil passar uma lei, especialmente uma sobre saúde das mulheres. A segurança de absorventes não é algo que está na mente de muitos membros do Congresso”, diz um representante de Maloney.

Nos EUA, você pode comprar comida, cacarecos e outros produtos sem pagar impostos: biscoitos Pop-tarts na Califórnia, sementes de girassol sabor churrasco em Indiana, bíblias em Maine e caixões em Mississippi. Mas nesses e em outros 36 estados, produtos para menstruação são taxados de 4% a 10%. No Brasil, 34% do valor pago em um pacote de absorventes vai para impostos.

“O imposto sobre absorventes faz parte de um sistema econômico no qual se assume que homens compram necessidades e mulheres compram luxos”, diz Gloria Steinem. Dos onze estados que não taxam absorventes, cinco não tem impostos sobre vendas, o resto especificamente retirou os impostos de produtos para menstruação. Jennifer Wiss Wolf, vice-presidente do Centro Brennan de Justiça na Faculdade de Direito da NYU, argumenta: “Qualquer pessoa que não acha que o imposto sobre absorventes seja um problema não é uma mulher ou então nunca foi pobre”.

Confira a grande reportagem original em inglês, A luta para acabar com a vergonha de menstruar está virando mainstream, publicada por Abigail Jones na revista Newsweek em abril deste ano. Texto traduzido, encurtado e adaptado por Deixa de Banca

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