Como perdi o nojo de mim mesma – Relato #5

Ilustração de Mariana Destro

Ilustração de Mariana Destro

Tenho vergonha de falar sobre masturbação. Quando a coisa faz parte da gente, não faz sentido mascarar, mas quando as pessoas tocam no assunto parece que é mais para nos constranger. Acho bacana a liberdade que temos aqui no Xotanás.

Nunca falei dessas coisas pra ninguém, ainda são um segredo que eu guardo, mas gosto de desenhar pra libertar meus pensamentos. Até quando posto um desenho de alguma menina se masturbando acho que alguém vai me chamar atenção por estar fazendo algo errado, e as coisas que desenho sempre foram motivos de riso e piadinhas por parte de alguns.

Achava um absurdo o que eu fazia, agora nem tanto, mas ainda não tenho coragem de assumir essas coisas.  Eu me sinto errada até hoje, mas não tenho mais o nojo que eu tinha de mim mesma… Eu tinha muito medo e nojo de me tocar, mas estou superando.

Eu era da igreja desde os 10 anos. Hoje estou meio afastada, mas quando eu era criança tinha nojo. Não lembro de ninguém brigando comigo por isso ou falando pra não tocar, só sei que eu não gostava. Nem no banho eu lavava direito, achava nojento tocar e preferia nem encostar. Achava que masturbação era um dos piores pecados que eu poderia fazer, evitava ao máximo o contato.

Como eu evitava tocar na minha vagina, nem tinha notado os primeiros pelos. Lembro de ter ficado muito confusa quando percebi que não era só um ou dois mas sim um monte.

EU NÃO GOSTAVA DA MINHA VAGINA, quando parava para olhar meu único pensamento era “cara, que nojo”. 

Queria que fosse tudo sequinho, sem pelos. Mas tem pelo, menstruação, corrimento, aff! São coisas normais que servem para o equilíbrio do nosso corpo, mas eu não aceitava isso – até porque ninguém conversou comigo e nunca tive liberdade de perguntar a amigas. Muita coisa procurei saber na Internet, só que quando era mais nova não tinha a quem recorrer, aí ficava com dúvidas. Essas dúvidas me deixavam atordoada, achava que estava tudo errado, que meu corpo não podia ser assim.

A primeira vez que decidi me conhecer foi depois de velha, totalmente sem jeito, aos 20 anos.  Eu sentia muita culpa. Foi quase assustador porque não estava entendendo as reações do meu corpo, aí fui percebendo que era normal e que eu não sabia nada de mim.

SOU MEIO INSEGURA, TINHA NA MINHA CABEÇA QUE EU PRECISAVA DE ALGUÉM PRA ME AJUDAR A ME CONHECER, SENDO QUE EU MESMA PODIA FAZER ISSO.

Pensava que quando encontrasse alguém aí eu iria descobrir meus gostos, mas nunca tive muita chance com ninguém, nunca namorei, então decidi me conhecer assim. Percebi que foi a melhor escolha, hoje depois de algum tempo vejo que precisa de um tempo comigo.

Me masturbar me trouxe auto-confiança. Sempre fui muito insegura, não prestava atenção nas minhas opiniões, ideias, porque eu estava esperando isso do outro. Quando me masturbo me sinto como quando desenho, posso fazer do meu jeito sem falarem que está errado, que é assim ou assado. Reservo um pouco de tempo para mim, e não tenho que me preocupar com questionamentos, problemas, insatisfação no trabalho.

Autora anônima, 23 anos.
Confira o trabalho da ilustrado Mariana Destro aqui. 

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