Homens têm inveja do útero?

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Giulio Cesare Casseri

Sigmund Freud não gostava muito das mulheres. Elas eram invejosas e tinham pouco “senso de justiça”. O psiquiatra austríaco acreditava que a emancipação feminina era uma tentativa cruel de atirar fêmeas no mundo competitivo masculino, e insistia para que elas permanecessem na tranquilidade da esfera doméstica. “Freud não estava preocupado em mudar a sociedade, mas em ajudar homens e mulheres a se ajustarem a ela”, afirma a escritora feminista Betty Friedan em A mística feminina (1963). 

Talvez o momento em que a sublimação* da misoginia cultivada por Freud tenha sido mais óbvia foi quando o bendito resolveu criar a teoria da inveja do pênis.

O menino, ao descobrir que garotas têm periquita, ficaria com medo de ter o piu-piu arrancado. E, ao perceber que não tinha um pinto, uma menina entraria num estado de inveja tão profundo que dele nasceria o desejo de ser um homem.

“Ela desenvolve, como uma cicatriz, um senso de inferioridade”, narra.  (Bom, não dava para esperar muito de alguém que achava errado gozar pelo grelo. Me desculpe estragar a festa do falocentrismo, mas os tais orgasmos vaginais são causados por estímulo indireto do clitóris).

Sigmund Freud e a filha, Anna

Sigmund Freud e a filha, Anna

 

“A grande questão que jamais foi respondida, e a qual ainda não fui capaz de responder, apesar de meus trinta anos de pesquisa sobre a alma feminina, é: o que uma mulher quer?”, divaga. Talvez se parasse de olhar para a mulher como uma versão inferior e incompleta de um homem, Freud conseguiria ter chegado a uma resposta.

Enquanto Freud pensava que mulheres eram incapazes, foi justamente sua condição masculina que o impediu de atingir uma compreensão ampla sobre a mente humana: “Sempre acho perturbador quando não consigo entender alguém nos mesmos termos de mim mesmo”. Ah, a ironia.

Mais construcionismo social, por favor
A psicanalista alemã Karen Horney foi possivelmente a primeira a denunciar como a psicanálise freudiana havia sido construída a partir de um olhar exclusivamente masculino: “Se tentarmos libertar nossas mentes desse modo masculino de pensar, quase todos os problemas da psicologia feminina assumem uma aparência diferente.”

Nascida em 1885 em Hamburgo, Karen aspirava a virar médica numa época em que mulheres dificilmente eram admitidas no ensino médio alemão, quem diria nas universidades. Desde pequena, ela já havia percebido que a suposta inferioridade feminina não era a tão evocada “falta de piroca”. Era causada pelas tais barreiras impostas pela sociedade.

Após ralar para conquistar um diploma num ambiente majoritariamente masculino, enfrentar a falência do marido seguida por um divórcio e criar três filhas, talvez Horney tenha sentido que o regime nazista seria um pouco demais para sustentar.

A psicanalista se exilou nos Estados Unidos e passou a lecionar no New York Psychoanalytic Institute. Foi lá que ela começou a expor com mais contundência suas críticas a Freud, que – obviamente – foram atacadas e perseguidas até Horney pedir demissão do instituto junto a quatro colegas.

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Para Horney, os freudianos deveriam parar de buscar respostas no determinismo biológico e se focar na cultura. Apesar de não chegar ao ponto de atribuir a inveja do pênis exclusivamente a fatores sociais, ela defende a importância desses elementos. O sentimento de inferioridade feminina não é nato, e sim adquirido após viver anos em uma sociedade que reduz a mulher a um objeto.

“O desejo de ser um homem, como Alfred Adler apontou, pode ser a expressão de um desejo por todas qualidades e privilégios que em nossa cultura sejam vistos como masculinos, como força, coragem, independência, sucesso, liberdade sexual, direito de escolher um parceiro.”

Seu nome é recalcado
Publicado em 1926 (!), o ensaio Flight from womanhood introduz brevemente o conceito de inveja do útero. Segundo Horney, tanto o homem quanto a mulher têm impulsos criativos. A diferença é que mulheres podem satisfazê-los não só agindo no mundo externo, mas também internamente, ao dar à luz. “É o sentimento de ter uma parte pequena na criação da vida que constantemente impulsiona os homens a compensar com feitos”, diz.

Motivado pela inveja do útero, o homem passa a julgar a mulher como inferior e a confina à esfera doméstica, enquanto sublima seu sentimento de inferioridade assumindo uma postura ativa e controlando o mundo externo. Às mulheres, no entanto, restam poucos veículos para sublimar a inveja do pênis, e, portanto, argumenta Horney, o complexo de inferioridade é mais pronunciado.

Numa época em que o aborto ainda é ilegal no Brasil, a amamentação em público é vista com olhares de repúdio ou objetificação, e um relato sincero sobre as dificuldades de cuidar de um bebê resultam em bloqueio pelo Facebook, enxergar a gestação como uma “expressão criativa” parece apenas mais um discurso bonitinho para justificar a maternidade compulsória.

No entanto, Horney reconhece que, nas condições vigentes, ser mãe é uma “desvantagem”, e sugere que a maternidade só se tornou um peso devido ao modo como foi socialmente construída. Infelizmente, ela não se aprofunda no assunto.

Filho do pai
Os mitos nos oferecem diversos exemplos de tentativas masculinas de usurpar o papel de gerador da vida. Quando Sêmele morre no sexto mês de gravidez de Dionísio, um dos milhares filhos ilegítimos de Zeus, o deus grego dá continuação a gestação carregando o bebê na coxa.

Fundadores de Roma, os gêmeos Rômulo e Remo nasceram de Rhea Silvia, uma Virgem Vestal, sacerdotisa que deveria se manter virgem para preservar a estabilidade do governo. Silvia teria  sido seduzida por Marte em um sonho. Os bebês foram abandonados e amamentados por uma loba, e em seguida adotados por uma prostituta, Lupa.

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Em From Good Goddess to Vestal Virgins (1998), Ariadne Staples enxerga no mito uma forma de eclipsar o papel da mãe. Na Roma Antiga, o status legal dos filhos de um casamento eram do pai – patria potestas. A mãe ficava com os direitos dos filhos ilegítimos.

“Assim como no mito a amamentação dos recém-nascidos feita pela loba, símbolo de Marte, sobrepõe-se à função natural da mãe, o patria potestas, laço paternal entre pai e filho, se sobrepõe ao laço biológico entre mãe e filho.”

O exemplo mais conhecido aqui pelas bandas ocidentais, no entanto, é Eva, que nasceu da costela de Adão. Nas religiões abraâmicas, o Criador do universo assume um aspecto masculino. Mesmo que não fosse chamado de Pai e costumeiramente representado como um velhinho de barba branca, o comportamento de Deus durante o Primeiro Testamento é tão obnoxiamente patriarcal e mimado que é impossível duvidar que se trata de um homem. Ainda que Allah  supostamente não se encaixe no binário de gênero, os islâmicos frequentemente se referem a ele com pronomes masculinos.

Foto de Renato Batata (copyright Demotix)

Foto de Renato Batata (copyright Demotix)

Saindo da esfera simbólica e passando para situações mais práticas, a legislação anti-aborto, a violência obstétrica e a maternidade compulsória também podem ser vistas como uma tentativa de exercer controle sobre a geração da vida e, consequentemente, sobre a autonomia criativa feminina.

Legado e criticismo
Horney parece não ter desenvolvido adiante o conceito de inveja de útero, que nem é mencionado no livro News ways in psychoanalysis (1947), obra na qual resume suas críticas às teorias freudianas.

Outros autores deram continuidade ao conceito, como o historiador Robert S. McElvaine em Eve’s Seed: Biology, the Sexes, and the Course of History (2000). McElvaine afirma que os homens sofrem de “Síndrome Não-Menstrual” e definem sua identidade em oposição às mulheres, ou seja, um “homem de verdade” é uma “não-mulher”.

“É perplexante que Horney tenha inventado a ideia de inveja do útero. Parece ir contra a própria posição dela, e trazer a psicologia de volta para a biologia, em vez de para a sociedade”, critica Esther Iglis Arkell no blog de tecnologia io9.

No feminismo radical, gênero é sim uma construção social, mas sua base é biológica. Como Shulamith Firestone mostra em A dialética do sexo (1970), a dominação masculina é resultado da família. A vulnerabilidade provocada pela gravidez torna a mulher dependente do homem. A solução estaria na erradicação da família como unidade nuclear da sociedade, proporcionada pelos avanços tecnológicos e por uma restruturação social.

Arkell parece ignorar uma sutileza. A diferença entre a biologia de Freud e a biologia no feminismo radical é, enquanto a primeira busca causas para justificar o presente e mantê-lo do mesmo jeito, na segunda as causas servem para entender o presente, e, em seguida, modificá-lo.

Embora ainda me sinta ambivalente em relação à teoria da inveja do útero e consiga enxergar sua fragilidade, buscar entender a origem do ódio dos homens pelas mulheres pode, com sorte, nos ajudar a chegar um pouquinho mais perto da utopia de Firestone.

Escrito por Deixa de Banca.

*Sublimação: mecanismo de defesa em que se desvia uma energia do seu objeto original e a investe em atividades culturais ou úteis para o grupo social.

8 comentários sobre “Homens têm inveja do útero?

  1. Karina disse:

    Estranho. Ela fez uma crítica ao determinismo biológico que Freud usou para tecer a “inveja do pênis” sendo que ela faz o mesmo quando essencializa a mulher ao dizer que todas tem útero. Entendo a relevância e subversão dessa outra visão, afinal, é até mesmo um afrontamento ao pensamento machista sobre a superioridade do homem, mas ao meu ver, nos dias atuais isso não faz sentido, não dá mais para essencializa a mulher puramente em sua biologia.

    • xxtera disse:

      O “ser mulher” veio da biologia, não veio do além, a feminilidade é uma construção que se baseou no sexo, aliás, ambos os gêneros. Como construção histórica, faz sentido, e ainda hoje, também faz, pois é como o mundo real se organiza. Esse seu pensamento pretensamente feminista é na vdd + uma forma de ostracizar uma autora mulher. Pq os autores homens não sofrem esses questionamentos e eles podem contar as próprias historias – e a dos outros. A gente não.

    • Grazielle disse:

      Como assim, “essencializa a mulher ao dizer que todas tem útero”? É claro que todas as mulheres têm útero.

      A criação de uma “essência feminina” vem da ideia oposta, a ideia de que mulher nasce para ser mulher e homem nasce para ser homem, independente de suas genitálias, independente do corpo que apresenta, que o “gênero” está na mente

      O que estamos falando aqui é o contrário, é sobre a famosa frase de Beauvoir, “Não se nasce mulher, torna-se”. O “ser mulher” e o “ser homem” são resultados de imposições da sociedade, padrões de comportamento e aparência. Sofrer misoginia e machismo vem o fato de nascermos fêmea, com vagina e útero. Homens não nos estupram porque nos identificamos com gênero, mas porque temos vagina. Freud diz, resumidamente, “fulano e fulana nasceram assim, ponto” e a Horney questiona isso, dizendo que somos frutos da socialização e que não existe isso de “nascer assim”. É tudo construção social. Ou seja, o SEU pensamento de que existem mulheres sem útero é muito mais próximo do pensamento misógino do Freud do que o pensamento da Horney.

      • Ana disse:

        Misoginia e machismo não vêm do fato de “nascermos fêmea, com vagina e útero”. Já viu alguém andando na rua com raio x e levantando saias alheias pra garantir que ali tem vagina e útero meeesmo, antes de passar uma cantada? Mulheres trans não têm útero e sofrem com misoginia e machismo da mesma forma que mulheres cis. Ou seja, é o seu argumento que é muito mais biológico e freudiano, e, no todo, contraditório.

      • Ana disse:

        Misoginia vem do fato de que as fêmeas, sejam com vagina e útero ou não, serem consideradas “mulheres” e como tais, sejam inferiores aos homens. Freud não falou que as mulheres são assim por causa da anatomia, ao contrário, foi um dos precursores a desconfiar que a vida imposta às mulheres é que as moldavam assim (na época, com as histéricas, por exemplo). Ele falou “anatomia é destino” porque à época ter um pinto era sim um destino muito melhor e mais promissor do que não tê-lo, mas destrinchou, ao longo de sua vida, que esse destino era uma atribuição dos recalques impostos pela sociedade. Foi o primeiro a dizer que a mulher tem uma sexualidade igual ao do homem, tão rica, complicada e diversa quanto, e que muitos dos problemas (histeria, por exemplo) da época deviam-se às restrições sociais impostas às mulheres. Acho que todas precisamos ler mais Freud e Beauvoir (lembrar que esta, além de ser mulher e sentir na carne a opressão, veio muito depois de Freud e já partiu de discussões somente possíveis graças aos pensamentos da psicanálise). Beuvoir também dá por certo que as mulheres são, naturalmente, mais frágeis, com o sistema nervoso instável por conta dos hormônios e outras tantas bobagens que hoje nos parecem datadas. Acontece que tanto Freud como Beauvoir foram revolucionários e são até hoje atuais em vários pontos de suas teorias.

  2. Ana disse:

    Há muitas críticas a Freud, que construiu a sua revolucionária teoria a partir de uma realidade datada: a burguesia vienense do início do século XX, que realmente valorizava o homem em detrimento da mulher. Então o que ele enxergou foi a inveja ao pênis, mas o que se inveja à a condição masculina, o status que se tem só por ser homem (e portanto ter um pênis). E sim, as meninas se sentiam profundamente humilhadas ao constatar que não tinham o pênis e que portanto a elas o mundo fechava as portas. Ele realmente enxergava as mulheres e o feminino assim como apresentados a ele: umas idiotas e sem qualquer perspectiva de mudar seu destino de fêmea reprodutora. Ao mesmo tempo em que ele se horrorizou (e ficou com medo?) de ter sua esposa como uma concorrente, preferindo-a como uma doce namorada, foi Freud que declarou para o mundo que as mulheres tem os mesmos impulsos sexuais, que suas limitações vinham das vidas limitadas que a elas eram impostas, inclusive sexuais, defendendo que as meninas deveriam ter experiências sexuais diversificadas e precoces, assim como os homens. Ele apoiou e admirou inúmeras mulheres, que puderam se desenvolver como médicas e psicanalistas no meio em que ele viveu. Portanto, ele foi sim cego e datado, mas foi surpreendente que ele, mesmo com as limitações naturais de um ser humano, pudesse desenvolver essa teoria que ajuda a tantos até hoje, especialmente com o desenvolvimento dos seus conceitos. A teoria freudiana, apesar de ser machista, para a época era extremamente avançada e ousada. Então fica aqui minha crítica às críticas tão contundente a uma pessoa que contribuiu e muito para que as mulheres se emancipassem, pois ao serem analisadas, tinham a oportunidade de se conhecerem melhor e com isso buscar sua própria felicidade (seja ela se enquadrando ou não na sociedade). Isso vale também para os homossexuais: foi um dos primeiros médicos a declarar que não era uma doença nem algo do que se devesse envergonhar, que era uma das muitas possibilidades da sexualidade humana. Isso para um velhinho do final do século XIX é algo a se admirar, ainda mais se levarmos em conta a mentalidade das pessoas até hoje! Apesar de não ter sido discutido isso nem por Freud, nem por Beauvoir (que aliás, se vocês leram o Segundo Sexo, também via a mulher como um animal frágil, cheio das frescuras, de fragilidades psicossomáticas, ao qual a menstruação era um incômodo tamanho que não consegui me identificar com esse animal, acho que sou outro tipo de bicho) e desconheço qualquer feminista ou pesquisadora que foi por esta linha, o homem inveja e teme profundamente a mulher, porque apesar de ele ter a potência da fertilização, esta é que é a criadora da vida. A mulher cria outra pessoa dentro de si, dá à luz, amamenta, é um poder incomensurável e invejável. Na minha opinião, toda opressão à mulher, em todas as épocas e tribos, vem da inveja do homem do fato de a mulher ter o poder de dar a vida e dar a morte (pois ao dar a vida, ela dá a morte também à criança) com seu próprio corpo e na sua própria carne. Por ela ser mais fraca fisicamente, domou-a sob o pretexto de que ele era o valentão e o poderosão, mas morrendo de medo dessa verdadeira deusa encarnada. Daí vem a Loba de Roma, a Virgem Maria, a Eva, que veio da costela de Adão (kkkk, coitado, ele é que veio do útero de alguma mulher!), as virgens em geral, as bruxas queimadas em fogueiras, a violência obstétrica, as cirurgias cesarianas eletivas e desnecessárias (não aquela necessária para salvar vida, mas aquela agendada ou imposta pelo médico, que coloca um monte de medo nas mães, captou?) para impedir que a mulher dê à luz com sua própria força e potência, os senões à amamentação, o julgamento de que a estuprada mereceu porque era “rodada”, e tudo o que a gente conhece. Inveja, se não do útero ou da vagina (pois como bem apontado aqui, nem toda mulher tem útero ou vagina), da potência de vida que uma mulher simboliza, de criar, parir e sustentar a vida, um ser humano único, em sua própria carne e com seus próprios esforços.

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