Ei, garota, nunca se masturbou? Venha aqui – Relato #4

Ilustração por (?)

Ilustração por Mariana Nascimento

Se você é uma garota, não importa a idade, e nunca se masturbou, CARAMBA, não sabe o que está perdendo. Sem implicar juízo de valor. Se você é mina e nunca siriricou não se envergonhe porque infelizmente não está sozinha. 40%  das mulheres brasileiras nunca se masturbaram, segundo dados de 2008 da pesquisa Mosaico Brasil. É mulher pra bicho que nunca teve prazer consigo mesma. Preocupante! Mas não surpreendente! Não em uma sociedade patriarcal com pilares misóginos. Sim, MISÓGINOS. Essa palavra é certeira.

Misoginia é o ódio e repulsa à mulheres e tudo ligado ao feminino. Vivemos em um mundo que não só odeia mulheres como tem aversão a tudo relacionado às mesmas. Inclusive seus corpos.

Mas, LUA, homens cis não são tarados/obcecados com o corpo feminino? Pois é, homens cis são estranhos. Homens cis só são tarados/obcecados com duas coisas: com o falo e a tão endeusada masculinidade deles. A “valorização” dos corpos femininos só serve para sustentar essa ideia de masculinidade heterocentrada. Amar mulheres que é bom nada. Tanto que estes corpos femininos que são “valorizados” não existem. São montagens irreais de um corpo que está longe de representar a diversidade e pluralidade da realidade física das mulheres.

Lembrando que essa transformação dos corpos femininos em padrões irreais de beleza é o que causa altos números de doenças alimentares, distúrbios e baixa auto-estima em meninas.

Tudo isso para te contar que o corpo feminino não foi feito para proporcionar prazer próprio. Essa é a regra. Somos educadas para servir o outro, dar prazer sem se preocupar em receber. Em uma sociedade misógina, mulheres são colocadas como objetos, nunca como sujeitos.

Lembro bem como sempre fui uma garota com tesão. Quando criança gostava de brincar com aquela parte estranha e escondida que ficava dentro da calcinha. Não sabia o que significava mas a sensação era boa. Até que com o tempo, a partir da pré-adolescência, o mundo me ensinou que aquilo era errado. Como poderia eu, uma garota pura e decente, me tocar? Errado, nojento. Pecado, inclusive.

Me recordo que estava em uma roda de conversa com amigas uma vez, tinha uns 14 anos, e uma delas, que estava zoando outra colega, disse algo como “aposto que você enfia o dedo na perereca quando toma banho” e todas ficaram enojadas apenas com a ideia de acontecer algo do tipo “eca, que nojo!”, elas diziam. Fiquei hiper sem graça e com vergonha, lembro das bochechas esquentando e a saliva que resistia descer garganta abaixo. Entoei um “credo, que horror” com elas sabendo que por dentro aquilo era algo que eu já tinha feito.

A partir desse dia e de outras experiências parecidas, além do que o mundo empurra para nós diariamente, comecei a ter bloqueios sexuais. Pior, comecei a enojar meu corpo. Parei de me tocar e apenas a ideia de sentir a minha vagina causava ânsia. A parte de baixo do meu corpo se tornou obscura para mim.

Junto a isso e a outras experiências também, passei a odiar meu corpo no geral. Minha auto-estima, dos 14 aos 18 anos, estava ao rés do chão. Não conseguia encarar meu corpo no espelho. Tinha vergonha de mim mesma.

Nesse período tive minha primeira relação sexual com um homem cis, o que chamam de “perder a virgindade”. Não senti prazer, só desconforto. Queria que aquilo acabasse logo, estava insegura. Se eu não me conhecia como poderia deixar o outro me conhecer? Não poderia, estava bloqueada.

Depois dessa experiência e lendo textos feministas na internet, o que eu gosto de chamar de boom siririca, comecei a me desvencilhar dos bloqueios que tinha com meu corpo (ouvi um amém?) e voltei a me tocar. Melhor coisa que fiz na vida. Li sobre como empurram para as meninas que masturbação é algo feio e errado, pecado!, enquanto que para os caras é expressão da masculinidade e é algo incentivado. Achei tudo muito injusto e taquei o foda-se. Ninguém vai reprimir o meu tesão.

Chamo a minha volta para a siriricagem de reencontro comigo mesma. Depois que voltei a me tocar, consegui ter orgasmo em relações com outras pessoas, minha auto-estima e amor próprio aumentaram consideravelmente, além da libido que está sempre nas alturas. Uma loucura, manas.

Não sinta vergonha de si mesma, se descubra! Quer coisa mais linda que se auto-proporcionar prazer? Se joga! O pior que pode acontecer é você não conseguir orgasmo de primeira ou assar o grelo de tanto prazer. E calma! Se não conseguiu orgasmo com a siririca não se desespere, há muito o que descobrir sobre o seu corpo e suas vontades, relaxe e tente novamente, talvez com outro tipo de toque ou estímulo.

O importante é começar! Há quem goste de fantasias mentais, outras apenas o estímulo sensorial do toque já funciona. Há quem fique apenas no toque clitoriano, outras curtem penetração com os dedos, na vagina, no ânus…..o céu é o limite!

Não estou aqui para falar sobre técnicas ou métodos de busca por uma masturbação prazerosa. Prazer não é algo encaixotado, cada uma atinge de uma forma. Siriricar é um momento de autoconhecimento, livre de cagação de regras e limitações. Liberdade é a palavra-chave.

Liberte o seu tesão, garota!

Relato de Lua Pereira, 20 anos. Conheça o blog da Lua clicando aqui.
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