A coisinha – Relato #3

Ilustração de Palindrômica.

Ilustração de Palindrômica

As viagens de carro eram longas, eu adormecia com a cabeça pesada, o enjoo mascarava a alegria de estar em movimento (vacas pastavam dos dois lados da janela, algumas me olhavam direto no olho, parecia que queriam me comunicar coisas). Era tempo demais com o pescoço amolecido no assento do carro, trancada em mim, com licença pra explorar a alma de menina, coisa tosca sem atilamento nem lisura, repleta de caroços e desníveis onde era possível cair e torcer o pé vezes seguidas. Observava as tiras de sol lamberem minhas coxas e já não era a mesma, porque um algo sem nome se avolumava ininterrupto como água morna que periga transbordar de uma banheira. Nascia espuma, as bolhas estouravam em ‘plocs’ mudos e eu afundava dentro daquela sensação que não era alegria, injúria, medo, nem ao menos tristeza, mas parecia preguiça, uma forma proibida de lassidão.

Fazia-me de adormecida, mas a memória trabalhava aflita e percorria esteiras em que desfilavam cenas de programas de TV a que eu me apeguei sem razão, recortes de revistas e ideias que pescava uma a uma na minha natureza torta. Quando procurava meu reflexo nos vidros, como que para garantir que eu não havia esquecido o meu corpo em casa, como um pijama que se esquece de pôr na mala, dava de cara com a mesma pele que me vestiu fielmente e teimou em ser-me toda a vida. O corpo não acompanhava a metamorfose que se dava no subsolo da pele quente, mas sentia que dentro de mim morava um monstro pegajoso, porque só um gremlin ou um uma tarântula gigante seriam capazes daqueles pensamentos, que eram a coisa pior de mim (apesar de não serem meus). Tinha nascido errada, um erro fundo que precisava ser mitigado a todo custo.

Mas a viagem era longa.

Ao mesmo tempo em que me embalava aquele torpor quente e apertado que escorria enrodilhado em parafuso e se alojava entre as pernas, sentia medo do que diriam as pessoas se descobrissem que dentro de mim morava um gremlin ou uma tarântula. Desejava que a professora, a mãe, a tia e as amigas da tia estivessem erradas, e que Deus não fosse onisciente, afinal, o pai do céu não podia saber tudo sobre a gente, caso contrário, ficaria bravo, talvez até desistisse. Certas coisas precisavam ser segredadas.

A lascívia sempre respondia ao chamado da preguiça e do calor, seus aliados, e eu era capaz de passar horas imóvel, trancada na minha mente, com medo do momento em que o não sei o quê acabaria – porque sempre acabava – como um trágico e maravilhoso elástico que se rompe. Foi dum jeito inocente e perverso que eu descobri a vontade de não sei o quê, e isso eu permaneceria sem saber, até que entendesse aos pouquinhos, em choque morno, que o molhado entre as pernas era o meu segredo – e o de toda garota.

Durante as férias, passava tempo demais deitada em um tapete felpudo infestado de formigas ruivas com gana de me morder a carne. Eu resistia bem às investidas das formigas, a regra máxima é que não poderia esmagá-las entre os polegares, como às vezes fazia papai, numa caçada obsessiva. Só era permitido rolar de um lado pro outro, que nem a Perfídia, a cachorra da minha tia, que também era assediada pelas viúvas, mas não podia sanduichá-las entre os dedos, precisava virar rolo compressor. Na TV, o mesmo filme rodava o verão inteiro, o meu preferido, de que agora só lembro a imagem que fiz da capa: uma estrela gorda e amarela recortada no céu azul. Tinham rostos demais na sala da minha tia, nos porta-retratos, revistas, quadros, e todos os olhares convergiam para mim e para a dança proibida dos meus dedos. Mas eles não me delatariam, afinal, uma feitiçaria ruim os pôs vítimas da mesma doença de que sofrem os brinquedos, claramente vivos e paralisados. Ter as testemunhas silenciadas em mordaça de tinta me deixava acesa e dissimulada. Nessas horas, aquela pelinha que lembrava chiclete mascado coçava e ardia profundo, tinha cheiro estranho e era gostosa de repuxar.

Com quatro anos eu mostrava ela – a minha coisinha – para os meninos na escola, porque eles eram curiosos e calhava de ter uma entre as pernas. Queriam saber, ver, como se, dentro dos shorts, as meninas escondessem dragões ou dromedários. Mas, quando eu espiava a coisinha, ela me decepcionava um pouco por não ser alada e cuspidora de fogo, como os meninos achavam. Era florzinha triste, coitada, um segredo que fica pra dentro e não se espia, mas hora ou outra se revela como um verso de música que a gente decora mesmo sem entender – até que entende.

Depois da fase curiosa em que escorregava as mãos para dentro da calcinha por boba incompreensão, esqueci-me da coisinha com a naturalidade de quem se esquece de um braço ou um joelho, mas nem por isso duvida que eles estejam lá, a postos no dever de ser-te. Briguei com ela. Feio. Nossa cisma começou quando a professora separou algumas aulas para falar sobre coisas que não entendíamos porque nunca eram ditas inteiras, mas vinham acompanhadas de ares de urgência. Ela fazia cara de bronca, ficava séria e insistia na existência de um lugar íntimo que era pra ser evitado a todo custo, como se não devesse mesmo estar ali, defeito de fabricação do corpo nosso que, por falta de conserto, carecia ser ignorado. De tanto a professora insistir no assunto entendi que intimidade era o mesmo que fazer xixi nas calças ou ter piolhos, motivo de vergonha.

Uma vez, mamãe estava no carro comigo e com a minha irmã e, enquanto contornava uma tesourinha, vimos um homem na beira da pista que coçava o miolo das calças com algum desespero, do jeito determinado que a gente coça o joelho quando tem casquinha pra formar. Ela soltou um “Credo!”, disse que, se ele faz isso em público, capaz de ser preso porque o povo pensa coisa errada. Foi aí que e eu entendi que, uma vez que os adultos pensam coisa errada de você, eles ficam maltratados a ponto de bater o carro. Passei a tratar os meus machucados com uma disciplina espartana e parei de coçar tanto as feridas, porque não queria deixar de morar em casa e me mudar para a cadeia. Nessa época, todas as coisas convergiam para o segredo alojado entre as minhas pernas, e comecei a questionar se a flor chocha era anomalia como a dos bebês que nascem com um dedo do pé a mais e precisam removê-lo no bisturi antes que a unha cresça. Caso contrário, nunca poderão andar descalços e, se tirarem os sapatos, capaz de alguém ver e gritar: Credo!

Só depois de completar 14 anos voltei a reconhecer a existência da minha coisinha, que coçava bastante naquela época e me dava ideias de desembaraço público. Um dia, peguei um espelho de mão no banheiro dos meus pais, voltei para o meu quarto, rodei a chave duas vezes na fechadura, posicionei o espelho entre as pernas e espiei. Achei-a tão… agressiva. Magoou-me profundamente lembrar que durante todo aquele tempo a flor murcha dividiu corpo comigo sem que eu autorizasse – nós dormíamos juntas, jantávamos juntas, íamos à escola juntas – e eu não sabia. Só que ela não era mais uma inha, virou planta carnívora, carnuda, de pelos esparsos que despontavam brilhantes – mas eu não queria aquela coisa imantada em mim. E se, no lugar dela, tivesse um nada? Um vácuo honesto, limpo, ou só um tapume de pele lisinha, como a da Barbie, que era a mesma com e sem calcinha?

Tocá-la? Sempre quis. Mas não ousava, nem mesmo quando acordava em reboliço vertiginoso no meio da noite e o resto da casa repousava sob o véu dos sonhos. Ainda pequena fui ensinada a me acreditar observada e a agir correto, para que não reportassem absurdos verdadeiros ao pai do céu, que tinha olhos em todas as superfícies e uma memória pétrea. Queria entender a coisinha, senti-la longe das escutas dos anjos, e deixar que toda a pressão, quentura e o molhado da coceirinha que, ao mesmo tempo em que alimentava aflição, saciava da forma mais definitiva, compulsiva, doente terminal. Eu provocava espirros em uma danação alérgica. Então entendi que a professora, a mãe e as tias estavam erradas. Intimidade é o amor da gente pela gente. Vergonha é outra coisa.

Relato de autora anônima, 21 anos.
Mais da ilustradora Palindrômica aqui. 

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