Não é crime amar cada pedaço – Relato #2

Ilustração de Ana Terra

Ilustração de Ana Terra

Quando toquei meu corpo pela primeira vez, foi para seguir as instruções de um livro ruim. Lembro que, além de mal escrito, o manual havia sido feito por um homem e para mulheres que não se sentiam sedutoras o suficiente e queriam virar o jogo. A receita do cara era essa: masturbe-se sete vezes por semana. Sim, o máximo que puder.

Pagando de biólogo, ele dizia que os feromônios se espalhariam pelo ar. Resumindo: uma mulher com tesão atrai mais os homens. Então, aos 13 anos, lendo um livro proibido, eu comecei. Foi mecânico e esquisito, além de parecer ilícito. Eu jamais poderia ser pega com os dedos por baixo da calcinha.

Quando me toquei pela segunda vez, foi para dar continuidade às instruções do pseudo especialista. Eu não senti nada. Era pura descoberta: saber onde estava o canal vaginal e o quanto meus dedos poderiam alcançar lá dentro. Foi assim até os 14, quando engatei meu primeiro namoro.

Só aí, enfiar o dedo por debaixo das roupas íntimas começou a fazer sentido e ser bom. Eu passava tardes inteiras sozinha, e mal via a hora da casa estar vazia para que eu me conhecesse. Mas a culpa sempre estava lá, no final de tudo, esperando por mim, em silêncio.

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Comecei a pesquisar na internet o jeito “certo” de fazer aquilo, e aí eu já devia estar na quinta ou na décima vez. Dei de cara com o portal Terra. O conselho, para quem estava começando, era usar um espelho, e foi isso o que fiz.

A sinergia de transar comigo mesma, frente a frente, foi forte. Era como ter alguém ali, uma outra mulher, gostando do que via e olhando, sem interrupções, para tudo o que eu ensejava com as mãos. Foi só na frente do espelho que compreendi o sentido de desejar um corpo que me pertence.

A partir daí, não saberia começar esse parágrafo com um número. Eu já havia passado de quantidades para a apreensão de algo que era meu. E era, sim, um sentimento de posse. Tremer involuntariamente, deixar que a respiração saísse do ritmo, não querer parar. Aquela sensação — a mistura de tudo isso — era para se viver com ela.

Quando toquei meu corpo em uma tarde seca, com óleo de semente de uva nas mãos, eu estava sentada numa cadeira, debaixo do ventilador de teto, em frente ao espelho. Meus dedos dançaram pelo meu corpo inteiro, fazendo coro com os espasmos que iam e vinham, percorrendo os músculos mais impossíveis.

Lá fora, era possível ouvir as árvores chacoalhando com o vento. O som era de arrepio. Naquele dia, encenei minha viagem sem volta para o lugar onde não é crime amar cada pedaço de si.

Autora anônima, 19 anos.

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