O chuveirinho – Relato #1

Arte de Verônica de Oliveira

Arte de Vebs

No princípio, havia o chuveirinho, uma porta fechada e duas pernas entreabertas. Do acidente, fez-se a luz. E eu vi que era bom. Não me lembro exatamente com que idade comecei a me masturbar, mas sei que foi cedo. Tão cedo que eu nem sabia que aquilo se chamava masturbação, nem mesmo que era sexual. Era uma sensação boa, que ardia no rosto, deixava as pernas trêmulas e a cabeça da gente meio besta.

O que eu sabia, sim, era que devia ser escondido. Meus pais não podiam saber, então aproveitava a ausência deles em casa para fazer as sessões com o chuveirinho. Depois, o medo: e se algo no meu rosto, no meu jeito de andar, entregasse o que eu havia acabado de fazer? E se algum vizinho meu do prédio soubesse flutuar pelo ar e estivesse me bisbilhotando o tempo todo, pela minúscula janela daquele banheiro no décimo-segundo andar? Até mesmo Deus, que tudo via, o que será que Ele tinha a dizer sobre as minhas maratonas aquáticas e pressurizadas?

Um pecado era cometido, dia após dia, mas eu não sabia qual. Até que, lá pelos 11 anos, dei de cara com uma palavra: masturbação. Corri pro dicionário, como sempre fazia quando encontrava uma palavra difícil, com cara de adulta. Eu queria saber. E soube: “Estimular os próprios órgãos genitais para obter prazer sexual”. E aquele desfalecer que eu sentia também tinha nome. Conheci “o mais alto ponto da excitação sexual” antes de poder chamá-lo de orgasmo.

Pouco tempo depois, durante a catequese, nos entregaram folhetos que listavam os pecados ao serem confessados ao padre. Lá estava a tal da masturbação. Foi na mesma época que comecei a ouvir piadinhas sobre como meninos se tocavam lá e como aquilo era nojento. Masturbação era coisa de menino. Masturbação era errado. Eu era uma menina e não queria ser errada. Então abandonei o chuveirinho.

Aos 14 anos, os hormônios não deram mais conta. Aí mudei de modalidade. O esquecido chuveirinho perdeu o posto para a esfregação de coxas. Assim, de lado, a coxas bem juntinhas uma contra a outra, a buceta contraindo, eu chegava lá. Elaborava grandes histórias de amor com artistas pelos quais eu era apaixonada, com roteiros intricados que inevitavelmente terminavam em coração partido. Se eu estivesse me sentindo particularmente dramática, criava uma doença terminal que impedia aquele amor de se concretizar. Mas a parte mais interessante eram as sessões de sexo: longuíssimas e inspiradas nos livros infanto-juvenis que lia. Naquela época, eu não tinha ouvido falar  no período de refração masculino, e ainda tinha ilusões.
A sensação de que eu estava fazendo algo errado persistia, então não contava para ninguém. Era um segredo sujo, que me deixava culpada, mas não conseguia me privar da sensação. Até porque, durante a adolescência, eu só fazia pensar em sexo, então me acabava na siririca. Engatava uma na outra e gozava seis, sete, oito, nove dez vezes por dia.

Foi no finalzinho da adolescência que descobri o feminismo, e com ele, que me masturbar não era errado. Era um ato de autonomia. Era eu conhecendo meu corpo e me fazendo sentir prazer, sem precisar de mais ninguém. Não era errado. Era lindo. Fui a primeira pessoa que me fez gozar. Hoje, continuo me masturbando com a mesma frequência que me masturbava quando adolescente. Dessa vez, sem culpa.

Autora anônima, 21 anos.

Veja mais do trabalho da ilustradora Vebs aqui.

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