A siririca na tevê e no cinema

Cena de Cisne Negro

Cena de Cisne Negro

Aos 16 anos, eu já havia acompanhado um repertório extenso de cenas de sexo vistas na televisão e no cinema. Pessoas se masturbando, no entanto, era algo a que jamais havia assistido, até ir ao cinema para ver Cisne Negro. Lá, em uma sala escura apinhada de gente – o filme foi um sucesso de bilheteria –, Natalie Portman se masturbou em uma tela de 5 metros de altura. Para mim, foi a glória. Não fosse, claro, a audiência, que se desmanchou em riso, apesar de ser uma cena dramática. Não estavam acostumados a ver uma mulher se masturbar, assim, em um filme, e não sabiam como reagir.

O fato é que, enquanto cenas de sexo abundam, masturbação mesmo quase não aparece no cinema. O que é engraçado, considerando que a maior parte de nós passa mais tempo se masturbando do que transando com outras pessoas. Para entender como a siririca costuma ser representada pela mídia, chamamos a antropóloga e documentarista portuguesa Rita Alcaire para bater um papo.

A antropóloga e documentarista Rita Alcaire

A antropóloga e documentarista Rita Alcaire

Rita fez a pesquisa Ménage à Moi: representações da masturbação na televisão e no cinema mainstream, em que analisou cerca de duas dezenas de produções de cinema e de televisão, tanto norte-americanas como portuguesas,  do período entre 1990 e 2000. 

Como a masturbação costuma ser retratada no cinema? E na televisão? Tem alguma diferença entre os dois meios?
Mesmo tendo analisado estes dois meios conjuntamente, arrisco dizer que no cinema há uma maior variedade de representações e algum arrojo na forma de o fazer do que na televisão. A televisão parece remeter para discursos mais cômicos relacionados com a masturbação. Refiro-me especificamente aos filmes e séries que analisei naquele período de tempo. Isto tem a ver, naturalmente, com os contextos de produção e todos os constrangimentos associados a isso, designadamente os públicos a quem se dirige e a procura de audiências, os horários de transmissão, os poderes por trás dos canais.

Há alguma diferença na forma em que a masturbação feminina é retratada em relação à masculina?
A maior diferença encontrada entre as representações da masturbação feminina e masculina dizem respeito à quantidade de vezes que aparece nas narrativas que analisei: a masturbação praticada por mulheres é representada muito poucas vezes, comparativamente.

Encontrei também outras diferenças. Por exemplo, o consumo de materiais pornográficos e o estímulo visual estão mais associados a homens. Brinquedos sexuais são mais populares entre as mulheres representadas nestas histórias. A utilização de dildos e de vibradores poderia ser algo de empoderamento feminino e disruptivo das normas, no sentido em que Preciado [Paul B., autor de O Manifesto Contrassexual] referiu. Poderia ser uma forma de quebrar a centralidade do pênis como eixo do poder no quadro do sistema heteronormativo. Mas, nos produtos culturais analisados, parece vir reforçar exatamente o hétero e o falocentrismo.

Posso referir o episódio ‘A Lebre a Tartaruga’ de Sex and the City (1998), que apesar da reputação do programa como (aparente!) promotor do direito ao prazer sexual individual das mulheres e do elogio da vida de solteira, reforça o ‘dever’, de acordo com as normas e as expectativas sociais, do envolvimento em relações românticas e sexuais com homens e enfatiza a identidade heterossexual em vez dos prazeres e poderes auto-eróticos.

Carrie Bradshaw, de Sex and the City

Carrie Bradshaw, de Sex and the City

A masturbação ainda é um tabu no cinema e na televisão? Por quê? Quais são as características negativas e estereótipos associados à masturbação?
Foi possível detectar padrões que dividi em algumas figuras típicas as quais aparecem recorrentemente nos filmes e séries de televisão do período que analisei. Por exemplo, o adulto desenquadrado, uma figura que se masturba para conseguir prazer físico, mas também, metaforicamente, para conseguir o seu lugar no mundo. O exemplo mais evidente deste tipo de personagem é Lester Burnham em Beleza Americana (1999).

Cena de masturbação masculina em Beleza Americana

Cena de masturbação masculina em Beleza Americana


Mais ainda, muitas das representações deste tipo de personagem masculina mostram uma espécie de consumo de outros durante o ato, especialmente de mulheres – normalmente na forma de imagens – que são transformadas em pouco mais do que acessórios pornográficos. Este tipo de personagem se dedica também, muitas vezes, a chamadas telefônicas obscenas ou práticas de voyeurismo.

Outra imagem recorrente que encontrei foi a de personagens loucos/loucas, com tendências criminosas. A masturbação é empregue aqui para demonstrar uma sexualidade perversa, um indivíduo apanhado numa espiral de loucura, alienação, sadismo e masturbação crescente.

Nesta categoria encontrei várias masturbadoras femininas loucas, como em Jovem Procura Companheira (1992), Um Olhar Obsessivo (1999) e Mulholland Dr. (2001). Nestas três narrativas, estas mulheres que se masturbam surgem como incapazes de formar relações com outras pessoas de forma profunda. Enquanto que nenhuma usa uma vítima como adereço direto (como acontecia no caso dos homens), todas assassinam ou tentam assassinar os seus amantes, que sentiam nunca ter totalmente, não eram seus por completo.

Cena de Mulholand Drive

Cena de Mulholand Drive

No caso específico do filme português Call Girl (2007) de António Pedro Vasconcelos, a masturbação aparece associada a uma prostituta que usa a prática para fazer um cliente poderoso (que pretende mais tarde chantagear) perder o controle e se entregar a práticas sexuais. Isto parece remeter para a sexualidade da mulher sempre no binômio da madonna-puta.

Muito comum também é o adolescente do sexo masculino representado como sendo sexualmente imaturo e com uma grande curiosidade sexual. Jim Levenstein de American Pie: A Primeira Vez (1999) é um exemplo típico desta categoria, em conjunto com as personagens das séries televisivas Weeds (2005-2012) e Parenthood (2010-2015).

Esta personagem-tipo aparece como uma figura que ainda não conhece a sua sexualidade e, por essa razão, leva a efeito um conjunto de experiências que habitualmente provocam uma atitude condescendente nos familiares e amigos da personagem em questão e grande riso na audiência. São habitualmente representados como frágeis, tanto emocionalmente como fisicamente. O comportamento que demonstram neste momento da sua vida é encarado como uma fase que será ultrapassada na idade adulta, à medida que acumulam experiência sexual e relacional.

Você pode citar filmes ou séries em que a masturbação feminina foi representada de forma positiva?
Para responder a esta pergunta tenho de sair do intervalo de tempo que defini para a pesquisa e alargar à produção de cinema independente e à televisão por cabo.

As representações da masturbação feminina na grande e na pequena tela têm evoluído bastante. Atualmente podemos encontrar uma gama alargada de tipos de mulheres e de formas de viver a sexualidade que permitem pintar um quadro mais vívido e alargado da sexualidade feminina. Dou alguns exemplos:

Em Shortbus (2006), a personagem Sofia Lin consegue atingir o orgasmo pela primeira vez através da masturbação, já adulta e depois de várias relações sexuais com homens. Em Pleasantville (1998) a personagem Betty Parker se masturba mostrando que as ‘meninas de família’ também o fazem. Em True Blood (2008-2014), a personagem Sookie Stackhouse se masturba fantasiando com vampiros.

Cena do filme Shortbus

Cena do filme Shortbus

Em Cisne Negro (2010), a personagem principal, Nina Sayers, é encorajada a se masturbar pelo seu coreógrafo e professor de dança como uma forma de conhecer melhor o seu corpo, se libertar e como consequência melhorar o seu desempenho artístico em palco. Ou Betty Draper de Mad Men (2007-2015) que aproveita a vibração do funcionamento da máquina de lavar a roupa para tirar prazer. Este último exemplo que dou é muito interessante porque pouco antes Betty ameaçou a sua própria filha que lhe cortava os dedos se a apanhasse a se masturbar de novo. Aliás, todos estes exemplos devem ser vistos sempre em contexto, pois às vezes acarretam discursos contraditórios.

De forma implícita ou explícita, estas representações abordam temas de poder na sexualidade: transformação, criatividade, fantasia. Do ponto de vista de uma leitura reparativa, mesmo quando não se trata de uma representação ‘sex-positive’ ou feminista, a existência destes retratos oferece uma oportunidade de, pelo menos, relembrar que as mulheres podem se masturbar e se masturbam.

Introdução e entrevista por Deixa de Banca

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *